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SEGUROS| 13.02.2025

Seguros em um mundo mais dividido

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A situação econômica e internacional atual deixa poucas dúvidas de que estamos caminhando para um cenário global mais fragmentado. Isso dará origem a novos riscos, como na cibersegurança ou na falta de cooperação diante das mudanças climáticas, o que aumentará a necessidade do setor de seguros, mas, ao mesmo tempo, acrescentará desafios à sua atividade.

Desde os anos 1980, as dinâmicas internacionais favoreceram a maior integração entre países, regiões e economias, um movimento que começou a desacelerar após a crise financeira de 2008. Atualmente, fatores como as guerras comerciais entre Estados Unidos e China, o abandono do multilateralismo durante a administração de Donald Trump e a guerra na Ucrânia marcam um novo ponto de inflexão, evidenciando o aumento das disputas geopolíticas e da fragmentação econômica.

A Associação de Genebra, principal grupo de seguradoras mundiais, abordou esse tema no relatório O Seguro em uma Economia Mundial Fragmentada, no qual a MAPFRE Economics também participou. O estudo destaca algumas das principais consequências dessa polarização:

  • Redução do comércio e dos investimentos internacionais: devido aos maiores preços para produtores e consumidores, problemas nas cadeias de suprimento e maior concentração dos fluxos comerciais.
  • Dispersão tecnológica, com restrições nas exportações, como no caso dos semicondutores, o que pode desacelerar a inovação e os avanços tecnológicos.
  • Erosão do multilateralismo, causando efeitos negativos em áreas críticas, como mitigação das mudanças climáticas, cibersegurança e preparação para pandemias.
  • Menor crescimento econômico. Segundo a MAPFRE Economics, o desacoplamento poderia custar à economia global entre 1 e 2 trilhões de dólares anualmente, devido a interrupções comerciais, menor colaboração tecnológica e maior gasto militar.
  • Inflação elevada, causada pelos fatores citados, além de uma maior exposição a choques no preço do petróleo ou um aumento do gasto militar.

O impacto no setor segurador

Diante de níveis mais elevados de incerteza e das ameaças crescentes, os seguros e a gestão de grandes riscos podem ser de grande ajuda para estabilizar os atores econômicos. A Associação de Genebra defende que haverá um aumento na demanda por soluções de seguros que cubram riscos de natureza política, interrupções no comércio ou nas cadeias de suprimento.

Esta tese torna-se evidente ao pensar, por exemplo, em seguros como os de danos de mercadorias ou meios de transporte que compõem o comércio internacional, os de interrupção de negócio, que permitem operar em ambientes complexos com maiores certezas para as companhias, ou os seguros de responsabilidade civil para executivos de empresas multinacionais que operam em países com menor segurança jurídica, que é afetada pelas disputas nacionais.

Embora este cenário possa trazer novas oportunidades, também traz uma série de fatores que condicionarão o negócio segurador e, em muitos sentidos, tornarão mais complicada a gestão de riscos que têm um componente global. O relatório cita:

  • Riscos globais. As tensões geopolíticas e a menor colaboração dos governos a nível internacional em assuntos críticos como a mudança climática, a cibersegurança ou as pandemias. Tudo isso afeta os seguros com maior exposição ao risco e maiores desafios para continuar oferecendo proteção aos clientes.
  • Diversificação internacional do risco. Diversificar o risco é uma parte essencial para o bom funcionamento das seguradoras, seja através de operações próprias ou de resseguro, já que as torna menos vulneráveis a riscos ocasionais, como uma catástrofe natural, e lhes permite uma maior eficiência no emprego de seu capital. A limitação no acesso aos mercados globais, pelo contrário, aumenta a concentração do risco.
  • Presença global. Como em outros setores, muitas companhias de seguros embarcam em estratégias de internacionalização que lhes permitem ganhar escala em seu negócio, o que incentiva a competitividade. Um maior distanciamento entre países e regiões pode frustrar estas tentativas.
  • Seguros comerciais e especializados, como os que cobrem grandes obras de engenharia, a produção industrial ou o transporte internacional, são os que são mais afetados. Enquanto nos seguros gerais (os mais comuns, como o de carro, residência…) os riscos são indiretos, mas no setor dos grandes riscos ameaças como a instabilidade política ou regulações mais duras se tornam muito mais tangíveis.
  • Queda na demanda por seguros particulares. Um menor crescimento econômico e uma inflação mais elevada prejudicam a capacidade de consumo dos cidadãos, o que prejudica a comercialização destes seguros gerais, e poderia fazê-lo especialmente com aqueles como os de vida, que são vistos como não essenciais.
  • Menor estabilidade financeira: os mercados enfrentarão dificuldades devido à fragmentação global, o que pode prejudicar uma parte importante da atividade das seguradoras, relacionada ao seu papel como investidores. Isso prejudicaria seus resultados e sua solvência. 

A Associação de Genebra indica que tanto os efeitos sobre o seguro como as possíveis respostas que possa dar diante delas variarão muito em função de como se desenvolvem os acontecimentos e conforme o cenário econômico internacional, desde uma maior fragmentação que se produza de maneira gradativa e controlada, até uma polarização do mundo em dois blocos, semelhante à Guerra Fria.

Mas, nos cenários mais prováveis, as seguradoras com alcance global poderão se adaptar a esta nova situação por meio, por exemplo, de um novo desenho dos produtos que oferecem em questões relacionadas como as cadeias de suprimentos ou os seguros de crédito no comércio internacional; a incorporação de ferramentas de análise de dados em tempo real que levem em conta a geopolítica, e modelos de previsão para a subscrição; integrar a análise de cenários e os testes de estresse na gestão de riscos; ou aproveitar oportunidades que possam surgir de fenômenos como a reindustrialização ou as novas políticas industriais dos governos.

Esse novo cenário internacional traz desafios não apenas para o setor de seguros, mas também para diversas outras indústrias. Em um ambiente em que fazer negócios internacionais se torna estruturalmente mais complexo e caro, a estabilidade e a proteção oferecidas pelos seguros serão ainda mais valorizadas.

 

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